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Rio: Histórias de vida e morte

Todos conhecem a minha admiração pelo RioEscrevi e demonstrei meu carinho pela cidade em seu aniversário de 450 anos. Porém, os problemas que a “Cidade Maravilhosa” enfrenta são tão conhecidos quanto sua vocação para a beleza, receptividade e cartão-postal do país.

Nesse outro post, dei algumas dicas de livros para entender a forma como a sociedade carioca (e por tabela a brasileira também) se organiza. Como são as relações de poder, as ligações do Estado com a população, bandidos, polícia, áreas carentes, jogo do bicho, enfim…

Livro "Rio: Histórias de vida e morte", de Luiz Eduardo Soares
Livro “Rio: Histórias de vida e morte”

Pois gostaria de atualizar a lista com minha mais recente leitura. É o livro “Rio: Histórias de vida e morte”, do antropólogo Luiz Eduardo Soares. Poucas pessoas entendem de sociedade e de Rio de Janeiro como o Luiz Eduardo Soares, um dos autores também dos “Elite da Tropa” (livros que deram origem ao filme “Tropa de Elite”).

Um dos principais questionamentos do autor em seu novo livro é justamente ao (pelas palavras dele) “clichê de Cidade Maravilhosa” do Rio. Para ele, há uma relação curiosa da “propaganda” com a realidade: por acreditarem na propaganda e viverem “de acordo com ela”, os cariocas passam a “mais ou menos” torná-la verdadeira, mesmo que em sua origem e reprodução a propaganda não correspondesse ao real e servisse a alguns interesses específicos de parte da sociedade. O que me lembra da profecia do Harry Potter (Alerta de Spoiler! Se você não leu a partir do livro “Ordem da Fênix”, o livro 5, pule para o próximo parágrafo!), que só se tornou verdadeira porque o Voldemort acreditou que ela era verdadeira e agiu como se ela assim a fosse, tornando-a, na prática, verdadeira mesmo. Confuso, mas dá pra entender, né?

Apesar de crucial, esse não é o único questionamento de “Rio: Histórias de vida e morte”. Entranhado nos bastidores da política estadual e federal, Luiz Eduardo Soares denuncia episódios de corrupção, violência, desigualdade social. Ele busca entender as origens do autoritarismo policial com lembranças da ditadura militar. Em tempos de imbecis no Congresso que saúdam a memória do coronel Brilhante Ustra, torna-se mais importante ainda deixar viva a memória das barbáries sofridas pelas vítimas desse período e as consequências que até hoje a sociedade enfrenta – com uma polícia que tortura, julga e executa populações marginalizadas. Em tempos de operação Lava-Jato e impeachment, o autor também expõe casos (com nome aos bois) que remetem ao início do mensalão lulo-petista.

Luiz Eduardo Soares fala da política das UPPs e de uma possível mudança no perfil do tráfico de drogas na cidade. Aliás, é nessa questão que ele mostra uma de suas mais polêmicas ideias: anistia para quem se comprometesse a largar a vida das drogas. Isso mesmo, você leu certo: anistia. Acho que nem eu concordo com isso! Mas, aí está a beleza desse livro: concordando ou não com as ideias de Luiz Eduardo Soares, é inegável que ele é um dos poucos que atualmente foge do convencional, do que não vem dando certo há décadas, e propõe algo, sem ficar só na crítica pela crítica.

Em tempo: se você já leu o livro, aqui vão entrevistas com o autor. Ele explica e debate as histórias e conceitos. Vale ler para ampliar ainda mais o conhecimento sobre o tema! Se você não leu o livro, as entrevistas são igualmente válidas, mas cheias de spoilers:

Luiz Eduardo Soares: “Estacionamos na barbárie” (2015)

Luiz Eduardo Soares: “Há um clamor por segregação no Rio” (2015)

Livro de coautor de ‘Elite da Tropa’ aborda violência do Rio e gênese do mensalão (2015)

Repressão e anistia na receita de Luiz Eduardo Soares para o Rio (entrevista de 2000! – data errada no site)

Leu o livro? Vamos debater nos comentários!

Greg

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

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