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Por que 13 Reasons Why não é uma série sobre suicídio

*Esse post contém spoilers, vá em frente por sua conta e risco

Até agora não encontrei ninguém que tenha conseguido fazer uma análise curta da série 13 Reasons Why. Queria poder ficar fora dessa lista, mas não vou. Então peço desculpas desde já. Admito que dei uma exagerada no título, mas vocês vão entender meu ponto já já.

Antes de, finalmente, começar a assistir à produção da Netflix li vários textos sobre a mesma. Mas foram alguns, os que faziam várias críticas, que mais me chamaram a atenção.

O mais enfático, e o primeiro deles, foi um do Pablo Villaça, crítico de cinema, que dizia para as pessoas não verem a série – apesar de, segundo ele mesmo, tentar nunca dar tais vereditos. Depois veio um do jornalista André Trigueiro. Ambos discorrem sobre como a série é um perigo para jovens que lutam para manter seu próprio balanço. E eu, do alto da minha ignorância sobre o assunto, até concordo. Mas paro por ai.

A série tem tanto para oferecer que acho até injusto se prender apenas a essa discussão. Ela é importante pra caramba sim e fico feliz que alguém tenha começado, mas não é a única. É importante dizer que eu não tenho uma resposta para resolver a questão: o que a gente faz então com as pessoas que podem ser potencialmente atingidas, de maneira negativa, pela narrativa? Seria melhor não tê-la feito? Ou ter feito de outra forma?

Questionei minha psicóloga a respeito e ela não concorda que a produção induz pessoas já com algum problema a tirarem a própria vida, mas chama a atenção para alguns fatos. Hannah é apresentada muito “bem arrumada” para uma pessoa que está doente. Segundo ela, o suicida encontra-se em um estado de profunda depressão onde, geralmente, é difícil até fazer coisas básicas como tomar banho. Acredita também que os temas foram abordados de maneira muito superficial e até o direcionamento sobre o próprio assunto foi raso, já que não explica melhor as questões nem os sintomas de alguém considerando se suicidar.

Depois que conversamos fiquei pensando sobre isso. Claro que dava para eles terem feito melhor, especialmente no desenvolvimento do tema suicídio em si. Mas eu, por exemplo, fiquei tão interessada que ao buscar sobre a série na internet descobri várias informações esclarecedoras sobre o assunto. Quantas pessoas também não fizeram isso? (dá um alô ai nos comentários se você também fez!)

Sobre “ser superficial”, principalmente no que diz respeito às outras questões que aborda, uma amiga ecoa minha maior dúvida muito bem: “Como você fala de suicídio ENTRE jovens e PARA adolescentes se não for de um jeito adolescente?”. E sobre aceitação, pressão social, machismo, homofobia, abuso de substâncias, negligência familiar, bullying e por ai vai.

Não sei mesmo, mas preciso dizer que pra mim a história introduziu na conversação adolescente – não só, mas principalmente – temas pelos quais dificilmente eles se interessariam de outra forma. E a gente precisa dar os créditos a ela por isso.

Começo dizendo que o episódio 13 tem cenas incrivelmente desnecessárias, em especial a fatídica cena de Hannah se matando, o que vai contra todas as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS) sobre como se deve lidar com esse conteúdo. Vocês podem encontrar mais sobre isso nos textos já citados anteriormente e também nessa entrevista da Folha de São Paulo com o psiquiatra Neury Botega. Sem falar que a cena é mal feita. É forte e é incômoda sim, porque qualquer pessoa se matando bem na sua frente vai ser forte, mas minha psico concorda: não é tão “fácil” assim se matar.

Dito isso, acho equivocado afirmar que a série é um tutorial para ensinar “como e porque escolher pela própria morte”, como afirma uma crítica que li na revista Trip, ou que apresenta o suicídio como a única resposta ou saída esperada. Pelo contrário, o que eu vi foi 13 Reasons Why querendo alertar o mundo de que tem gente precisando de ajuda e nossos olhos parecem estar fechados para isso, mesmo diante de tantos indícios.

Diversos diálogos ao longo dos 13 episódios são prova. Hannah teve um poema divulgado onde dizia que estava cansada da vida. O colega que divulgou sabia disso. Zach sabia disso. Hannah foi até o Sr Porter, conselheiro da escola, dizer que estava cansada da vida. Hannah conta que foi estuprada e é colocada em dúvida PELA PORRA DO CONSELHEIRO DO COLÉGIO DELA. Quantas mulheres não são postas, todos os dias, em dúvida pelas agressões que sofreram?

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Comentário feito após agressão televisionada pelo BBB17. Isso sem falarmos em outras, como o caso da menina que teve sua agressão, por 30 homens, divulgada na internet e ter sido posta em dúvida, culpabilizada.

O que importa aqui é que ninguém fez nada. Ninguém conseguiu perceber a importância daquilo. Quantos Zachs, quantos Sr. Porters e quantas Hannahs tem por ai? Precisamos falar e entender o suicídio (e o machismo, e a homofobia e o racismo). Precisamos falar sobre pressões sociais, sobre bullying, sobre rótulos, precisamos falar sobre assuntos que matam.

Precisamos olhar para o próximo e não cometer os erros dos personagens da série de não prestar atenção, deixando assim de mostrar para pessoas ao nosso redor que é possível receber ajuda. Tem adolescente entendendo isso agora. A mídia NÃO ESPECIALIZADA está falando sobre isso. Por. Causa. Dessa. Série.

O que a produção faz e incomoda muita gente é escancarar a realidade de que muitos suicídios ocorrem porque não é oportunizada a questão do tratamento, como vi um colega comentar. Outro amigo chamou a atenção para o fato de que as pessoas focaram tanto no ato em si que não perceberam que outros alunos estavam exatamente na mesma situação de não estar aguentando o peso dos seus problemas! Skye precisa de ajuda. Alex precisa de ajuda. Tyler precisa de ajuda. Até Jason precisa de ajuda. E se você precisa também, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida:  www.cvv.org.br ou 141.

13 Reasons Why testa seu espectador pra ver se ele entendeu o recado.

Você sabia que um dos sinais de uma pessoa que considera cometer suicídio é colocar suas coisas em ordem, arrumar sua casa ou seu quarto? Você percebeu, no último episódio, que Alex faz exatamente isso? Então dá uma olhadinha nesse post do BuzFeed.

Eu também não percebi na hora, porque a informação que eu tinha sobre isso antes era nenhuma. Só que como disse lá em cima: depois de assistir aos 13 episódios fui atrás para saber mais. De novo: é sobre hipocrisia, sobre empatia, é sobre prestar atenção na dor alheia.

Fora outras questões, não menos importantes, como porque grande parte das mulheres não denunciam abusos sofridos (Hannah e Jess), porque elas não reagem a agressões (como quando Marcus e Bryce passam a mão em Hannah), como é ficar sem reação e fingir que nada aconteceu (Hanna no Valentine’s com Marcus e Jess agindo naturalmente com Bryce). Como é sentir o peso de ser gay em uma sociedade ainda homofóbica (Catherine não querendo contar para os pais o fato de gostar de meninas com medo do preconceito que eles mesmos podem sofrer e Tonny apresentando seu namorado como amigo).

Fala ainda sobre abusos de substâncias, negligência familiar (e ai tem um pouco de todas, desde a família de Hannah, que apesar dos problemas financeiros poderia ter sido menos negligente sim, até a de Catherine, a de Jason a de Tyler com seu baú de armas). Até umas palhinhas sobre privilégios a série dá (como quando o Sr Porter, conselheiro da escola e negro, diz não conhecer determinada gíria porque no colégio de onde ele veio os alunos apontavam armas na cara um dos outros).

A narrativa não pretende ser uma análise profunda de cada um dos temas, ainda tão tabus, mas não é por isso que deixa de ser incrível eles estarem presentes lá (pra mim, de forma natural). Acredito que é assim mesmo, sem personagens e questões estereotipadas, que se pode inseri-los, no cotidiano.

No mais: não acho, em momento algum, que a produção romantiza o fato ou coloca a protagonista – se é que podemos chamá-la assim – em um papel de heroína. É possível claramente perceber o cuidado tomado em mostrar que os acontecimentos descritos na fita eram “a verdade da Hannah”, como diz Tonny mais de uma vez. Eram a forma como ela viu as coisas, como mostra um diálogo entre Zach e Clay a respeito da carta que Hanna diz ter visto Zach jogar fora, mas que ele nunca jogou. “Talvez ela tenha visto isso acontecer”, diz Zach. Era a perspectiva dela sobre a história, não uma verdade universal sobre os acontecimentos.

Um dos fatores preponderantes para não jogar a série em um saco de ~ rasas, irresponsáveis e com roteiros furados~ é não julgar a dor de Hannah de acordo com a sua perspectiva do que é ou não pesado. Por exemplo, vi gente julgando injusta a presença de Shay na lista. Desproporcinal. Não entendi Hannah querendo proporcionalidade. Nos último episódio ela diz: Bryce tirou minha alma. E isso o coloca acima de todos os outros. É o efeito borboleta, uma coisa leva a outra que leva a outra que leva a outra. Hannah se sente culpada pela morte de Jeff por causa do acontecimento com a placa e quem sou eu ou você pra dizer que isso é exagero? Pra ela não era.

Jess não pode estar na lista por que também foi estuprada? Jess é a figura da melhor amiga que decepciona de diversas formas. Se afastando sem dar explicações, sendo ausente, “roubando” Alex, um dos únicos amigos que Hannah tinha, namorando com um dos caras mais babacas que passou pela vida de Hannah. Jess está na lista porque é decepção. Assim como Clay. Desde o início eu sabia que ele estaria lá por ser um ameba. Por nunca fazer nada. Não dá pra querer analisar o drama do ponto de vista adulto.

Por isso, acredito que adolescentes vão absorver a série da maneira boa. Se você viu como um incentivo a jovens adolescente para se matarem, eu vi um incentivo para olharem com mais empatia para seus colegas, uma lembrança para ajudarem suas amigas a reconhecerem e denunciarem um estupro, um alerta para não julgarem ninguém, mas principalmente, as mulheres a sua volta, um pedido para que não menosprezem qualquer que seja a dor do outro.

Gosto da lição sobre entender que não sabemos o que se passa na vida das outras pessoas e que por isso não devemos colocá-las em caixinhas com rótulos. Por isso meu título. É muito mais sobre essas lições do que sobre o suicídio em si – que como disse minha psicóloga, a série esclarece bem pouco. Se você está interessado em uma narrativa que aborde mais profundamente a questão do suicídio e também desses grandes massacres que acontecem nos Estados Unidos (que, ao que parece, é o que virá a acontecer com Tyler) minha psicóloga indica o livro Precisamos Falar Sobre Kevin, de Lionel Shriver.

Enfim, achei 13 Reasons Why dolorosa e acredito que é como ela se pretende. Fui assistindo com pausas. Várias vezes senti um aperto sufocante no peito. Revivi algumas dores. Faz aqueles que não se enquadram no “grupo de risco” pensarem sobre quão negligente é a sociedade a respeito de assuntos tão sérios. De qualquer forma, vale repetir meu questionamento inicial: será que vale o risco considerando a consequência sobre aqueles que se encontram psicologicamente vulneráveis? Não sei. Mas já que estamos aqui, pra mim o saldo é positivo.

Hannah podia ter sido salva. Hannahs podem ser salvas todos os dias. Acreditem nisso.

“Precisa melhorar. O modo como nos tratamos e cuidamos um do outro. Precisa melhorar de algum jeito.” (Clay).

Se você precisa de ajuda: www.cvv.org.br ou 141.

Laura.

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