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O que podemos aprender com Trump

Em uma das maiores surpresas eleitorais da História recente, os EUA elegeram Donald Trump para a presidência. A sensação de impotência e incredulidade é mundial, principalmente para nós, estrangeiros, que acompanhamos “de fora”. Mas a eleição de Trump pode ser uma chave para aprendermos algumas coisas para o nosso Brasil:

O recado americano para a sociedade e para a mídia aqui do Brasil não podia ser mais claro: precisamos começar a agir agora ou 2018 será tarde demais.

Trump se favoreceu de uma demora da mídia para “tomar partido”, para refutar as mentiras descaradas que dizia. Em nome de uma pretensa “neutralidade”, “imparcialidade”, a mídia foi usada por Trump (e, por razões óbvias, é inegável o domínio dele no assunto) para se promover. Assim como Trump nos EUA, aqui alguns candidatos já entenderam como se favorecer dessa lógica (criar polêmicas, muitas vezes vazias, apenas para ganhar minutos nos telejornais e likes e compartilhamentos nas redes sociais). É importante, desde já, que os jornalistas e veículos sejam claros com a população: “isso que o candidato X está falando é uma mentira!”. “Isso não se sustenta, basta olhar os dados Y e Z”. É importante que a sociedade se mobilize e cobre uma mídia que apure as falas dos candidatos – e não uma sociedade que ataca os veículos de imprensa se estes veículos “dissecarem” o candidato que se tem intenção de votar.

Outro ponto importantíssimo que podemos aprender com a eleição de Donald Trump é que o “eleitor médio branco raivoso e descontente com perdas de emprego e certos privilégios sociais” é um fenômeno global. Aqui será igual. Já é assim – os sinais estão por todos os lados. Esse “eleitor médio branco raivoso” é também, normalmente, homem, evangélico (e aqui não vai qualquer tipo de fala pejorativa, apenas uma constatação) e na casa dos 30 a 50 anos. Esse é também o eleitor “silencioso”, que não faz textão no Facebook, que não participa de debates nos bairros e nem aparece nas pesquisas – mas que sim, sai de casa e vai votar, diferentemente do “cidadão médio engajado”, que às vezes se mobiliza, mas às vezes também viaja no dia da eleição, anula o voto por “não concordar 100% com determinado candidato”, etc.

À esse “eleitor médio branco raivoso”, soma-se a crise de representatividade na política (seja por falta de líderes, pela corrupção, enfim). No mundo todo, os políticos estão distantes dos cidadãos. No Brasil, então… A raiva de um grupo numeroso, aliada à desilusão de outro enorme grupo, leva a uma falsa “não política”. Os candidatos “anti establishment”, como Trump, se favorecem disso – e por todo o Brasil é igual. Os grandes perigos dessa “não política” são dois: um completo despreparado fanfarrão assume; e/ou quem poderia equilibrar as votações simplesmente não vai votar ou anula o voto, levando um outro grupo engajado a escolher por todos (basta ver a eleição de Crivella para prefeito do Rio).

Combater isso não passa por desmerecer quem vota em Trumps tupiniquins. Pelo contrário: o discurso de “nós x eles” só gera mais raiva. É preciso ir até onde estão essas pessoas, entender seus anseios, debater didaticamente. É preciso levar educação – e conhecimento. Por exemplo: aqui no Rio, havia o boato de que ia ter “kit gay nas escolas”. É mentira. Identidade de gênero não é isso. “Vão desarmar a polícia”. É mentira. A desmilitarização é algo totalmente diferente – e apoiado até pela ampla maioria dos PMs. Mas essas informações precisam chegar a esses eleitores médios citados acima.

Por fim, a eleição de um Trump mostra ser um grande risco por dar voz a discursos xenofóbicos, misóginos, racistas, homofóbicos e não ecológicos. Por que defendemos tanto que haja mais mulheres na política? Mais negros? Mais mulheres negras? Porque precisamos de representatividade. Essas pessoas, além de conhecimento de vida das pautas a serem defendidas (não vou nem entrar em “lugar de fala” para não estender o debate, mas vale pesquisar), são também imagens, ícones, exemplos para milhares de outras. Um líder com os discursos bolsotrumpescos é a representatividade sendo usada para o lado errado, para a desunião. É dar voz a todo tipo de indivíduos xenofóbicos, misóginos, racistas, homofóbicos e não ecológicos. Repito porque a ênfase é necessária. Olhe todos esses discursos. Juntos. É urgente olharmos para nós mesmos, nossa sociedade, e agirmos o quanto antes. Debater é preciso. Levar conhecimento é preciso. Precisamos nos reconhecer como diferentes, mas unidos no respeito mútuo. Respeito pela aceitação, não pelo medo ou pela raiva. Antes que seja tarde demais, como foi com Trump. Como pode ser aqui em 2018.

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

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