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O menino e o memorial

Na tarde de um dos últimos dias da Paralimpíada, parei numa das mesas ao ar livre do Parque Olímpico para lanchar. Como estavam todas cheias, um menino e uma senhora pediram para dividi-la comigo, o que prontamente aceitei, claro! O menino, magrinho, com seus oito anos de idade, estava eufórico: estava vivendo uma Paralimpíada!

A tia do menino me contou que era a primeira vez que ele estava ali, no Parque. Apesar das insistências dela, que fora outras vezes, ele não tinha ido aos Jogos Olímpicos por “medo de virar um memorial“. Medo da confusão, de uma possível falta de segurança… mas, com o passar do tempo, ele ficou curioso e, sentindo-se mais seguro, quis ir lá conhecer e participar da festa que via pela televisão!

Foi então que perguntei ao menino qual esporte ele ia assistir: Goalball”, respondeu ele, com um misto de ansiedade e admiração pelo que se passava em volta, o vai e vem de camisas do Brasil, de outros países, e pessoas das mais variadas idades, algumas com deficiência, rindo, conversando e tirando fotos.

Achei o máximo! Como pode aquela criança de oito anos estar super empolgada em assistir ao Goalball?! E estar ali, naquele clima, vivenciando tudo aquilo?! Isso é sensacional! Aos meus oito anos, eu não fazia nem ideia de que o Goalball existia! E foi aí que eu percebi o quão melhores saímos do último mês e meio. Estava ali, diante de mim, nos olhos brilhando daquele menino de oito anos, o maior legado dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio.

A Olimpíada (e a Paralimpíada) do Rio foi muito questionada por valores, obras, resultados e muito se falou no verdadeiro legado dos eventos. Nosso espírito crítico e fiscalização do poder público devem ser constantes, mas tivemos a oportunidade de crescer, como pessoas e sociedade.

A Rio-2016, em tempos bolsotrumpescos, relembrou os valores da integração, da inclusão, do respeito, da tolerância. Pôde embrionar uma cultura esportiva em nós aliada a uma cultura mais humana. Mostrou que não são as igualdades entre as pessoas que importam, mas sim as diferenças respeitadas e a possibilidade de se viver junto em harmonia e respeito com quem profundamente se difere. Com-vivência, convivência.

O menino teve medo de se tornar um memorial no início por um atentado terrorista, mas mal sabe ele que ao ir aos Jogos, ele também estava criando um novo memorial. Espero que daqui a 20, 30, 50 anos, esse menino possa contar aos filhos e netos que estava presente e ajudou a construir o mundo novo que eles agora vivem, que fez parte do evento que nos ajudou a lembrar que podemos sim sermos uma sociedade mais integrada. Um memorial deverá existir, mas não por causa de supostas vítimas. Um memorial ao amor, ao respeito, à alegria e à integração. Um memorial ao novo mundo que começa agora com o fim da Rio-2016!

PS: Segundo o Larousse, memorial é: relativo à memória, memorável; monumento comemorativo. Memorável: digno de memória, que deve ser lembrado; célebre, notável, memorial.

Foto em destaque: autor desconhecido | Torcedores.com

Greg

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

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