Skip to main content

O dia em que eu almocei com o secretário-geral da ONU

O ano era 2003. Era um fim de semana qualquer de agosto para mim, então na escola ainda. O máximo que eu fazia na época era comemorar que não tinha aula e jogar videogame. Não sei por quais motivos, um grande amigo me convidou para almoçar com os avós dele. Não era aniversário desse amigo, porque é só em dezembro… só lembro que era uma feijoada no Copacabana Palace e, assim, além da amizade, não teria como recusar, não é mesmo?!

Chegando ao restaurante, lembro perfeitamente bem que estávamos em uma mesa para seis pessoas. Na diagonal ao nosso lado, de forma que os lugares centrais ficavam bem próximos, uma outra mesa ainda vazia enorme, daquelas para umas 20 ou 30 pessoas, de comemoração com todos os tios do pavê possíveis.

Feijoada vai, feijoada vem, a mesa ao lado começa a encher. Mas não eram tiozões, era um monte de gente de terno, engravatada, com ar importante. Alguns falavam em português, mas quase todos conversavam em inglês. Curiosamente, os cinco lugares centrais continuavam vagos…

De repente, vejo a entrada do salão e tem dois armários gigantes observando! Sem sacanagem, deviam ser os malucos mais largos e altos que eu já vi! Típico segurança mesmo, óculos escuros, ponto no ouvido, o próprio estereótipo. Pelo caminho no meio dos dois seguranças entra um homem grisalho, meia altura, de terno cinza, com óculos. Era Celso Amorim, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil. Logo atrás, um negro mais alto, com cabelos já quase totalmente brancos e um cavanhaque. Era, evidentemente, Kofi Annan, o secretário-geral da ONU. Na cola dele, como uma sombra, mais um daqueles armários.

E qual não foi minha surpresa quando esses senhores sentaram-se justamente nos cinco lugares vagos, logo ao lado da mesa em que eu estava? Lembro que eu e meu amigo chegamos a cogitar pedir uma foto ou um autógrafo(?!), mas acabamos desistindo. Ficou, pelo menos, a lembrança de um dia aleatório em que eu saí para comer despretensiosamente e acabei almoçando a menos de dez passos do secretário-geral da ONU!

Em tempo: para quem não se recorda, em 2003 os Estados Unidos estavam em plena “Guerra ao Terror” no Iraque. Em agosto daquele ano, um atentado com um carro bomba contra a sede da ONU em Bagdá deixou 22 vítimas. O diplomata brasileiro Sergio Vieira de Mello era uma delas. Kofi Annan e a comitiva da ONU estavam no Brasil para o enterro do Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos. A minha história é curiosa, mas não podemos deixar de lamentar esse fato e tratá-lo com sua devida seriedade. Em 2008, a ONU instituiu o dia 19 de agosto, data do atentado em Bagdá, como Dia Mundial da Ação Humanitária, uma forma de relembrar sempre os que perderam suas vidas em missões de causas humanitárias em áreas de conflito.

Foto em Destaque: Flickr World Economic Forum

Esse é o primeiro texto da área de “Causos”. A ideia é mostrar algumas curiosidades pelas quais eu já passei, aquelas “histórias para contar para os netos”. Histórias que são verdadeiras e que podem ser confirmadas pelas outras pessoas envolvidas, mesmo que possam não perecer reais!

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

One thought to “O dia em que eu almocei com o secretário-geral da ONU”

Comente