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O cheirinho acabou, mas o Flamengo está maior

Ao empatar com o Coritiba no Maracanã, neste domingo, por 2 a 2, o Flamengo ficou sem chances de ser campeão do Brasileirão 2016. O tão falado “cheirinho de Hepta” criado pela torcida rubro-negra ficou, pelo menos, para 2017. Mas, apesar da frustração momentânea e compreensível dos torcedores, o Flamengo está muito maior do que nos últimos 20 anos.

Esse post será dividido em três partes: uma análise rápida do Flamengo no empate com o Coritiba por 2 a 2, que fez com que o rubro-negro não tenha mais chances de ser campeão brasileiro em 2016; o Flamengo no ano de 2016; e o que eu penso sobre clubes de futebol.

Sobre o jogo: Zé Ricardo errou na substituição de Gabriel por Mancuello no intervalo. Ele tirou um ponta e colocou alguém que cai pro meio, deixando o time “torto”. O time não ficou nem num 4-2-2-2 clássico, nem no 4-3-3 do início do jogo com os pontas abertos. Ficou com o Éverton na esquerda e sem ninguém na direita. O Coritiba fechou o lado esquerdo do Flamengo, por onde haviam saído os gols no primeiro tempo, e aí dominou as ações no meio-campo. Além disso, Mancuello entrou em péssima forma, o que contribuiu para a substituição ser mais “catastrófica”. É bem verdade que quando o rubro-negro fez 2 a 0 na primeira etapa, o Coxa já estava melhorando na partida. O curioso é que apesar do domínio do time de Curitiba na maior parte do tempo, o Flamengo teve quatro(!) ótimas chances de matar o jogo e não aproveitou: uma ainda no primeiro tempo com Willian Arão, após lindo passe do Guerrero; outras três no segundo tempo, com um chute de Guerrero dentro da área, uma cabeçada do atacante peruano na trave e um cruzamento do camisa 9 para Fernandinho, que completou para fora. Depois de diversas chances perdidas dos dois lados, o Coritiba acabou conseguindo o empate.

Sobre o Flamengo em 2016: o erro de Zé Ricardo hoje, o empate e o fim do sonho do título são uma “vergonha”? É claro que não! É óbvio que é preciso levar em conta as circunstâncias desse jogo (abrir 2 a 0 e sofrer o empate) e dos últimos jogos do time no Brasileirão, mas o rubro-negro já igualou a sua melhor campanha da História dos Pontos Corridos (67 pontos, em 2009) faltando mais duas rodadas para o fim. Isso é evidência de que o trabalho “já deu certo”! E Zé Ricardo tem muito, mas muito mérito nisso! Na verdade o Flamengo ficou refém do seu próprio inesperado sucesso, pois as expectativas subiram de patamar. O Flamengo começou o campeonato sem zagueiros (erro grosseiro do “planejamento” de Rodrigo Caetano). Em um ano sem casa, viajando por todo o Brasil (com o desgaste absurdo físico e mental que isso gerou), pensar em título com o cenário que se pintava em maio era um “sonho de maluco”. Zé Ricardo arrumou o time e tem disparado o melhor custo-benefício do país. Pense em um técnico para substituí-lo. Provavelmente, só Cuca e Tite. Além de não estarem disponíveis no mercado, com o salário deles o clube pode trazer uns dois jogadores para serem titulares. O Flamengo abusou de erros – da diretoria e do time – que, somados, custaram o campeonato, mas que se servirem de aprendizado e auto-avaliação, colocarão o clube como um dos favoritos em 2017: um time sem zagueiros no início, sem casa, que fez o confronto direto contra o Palmeiras no primeiro turno em estádio com torcida mista, que foi o rei de perder “gols feitos”, que não aprendeu a “segurar resultados” e que abusou de perder pontos fáceis (pênalti no último minuto contra o São Paulo cobrado para fora; gols  “de graça” para o Fluminense no primeiro turno; abrir 3 a 1 e deixar o Botafogo empatar em 3 a 3; o 2 a 2 hoje, etc.). Se o Flamengo aprender com os erros de 2016, vai no mínimo montar um time desde o início do ano para o campeonato, definir uma casa fixa (mesmo que não o Maracanã) e arrumar o problema de falhar nos momentos decisivos dos jogos-chave.

Por fim, mas não menos importante, tenho uma visão clara sobre qual o papel dos clubes de futebol para eles continuarem crescendo, para serem grandes. Acredito que um time não precisa ganhar títulos, mas vender sonhos. Se vencer campeonatos, ótimo, mas o importante é o percurso, é criar emoções! Fazer sua torcida sonhar, cantar, vibrar, se emocionar ao longo das competições que joga. Construir a narrativa histórica daquele torneio em que disputa. Quantos times estreitaram laços com a torcida mesmo sem vencer campeonatos? O próprio Flamengo ficou quase duas décadas, de 92 a 2009, sem vencer um Brasileiro e sua torcida só cresceu. Quantos times criaram histórias épicas que seus torcedores adoram relembrá-las e debatê-las a todo momento, mesmo que nem sempre tenham sido títulos? O Fluminense na Libertadores de 2008, o Grêmio da “Batalha dos Aflitos” (que valia o acesso da Série B), etc, etc…

Pois foi exatamente isso que o Flamengo e sua torcida fizeram em 2016. Com o “cheirinho de Hepta”, eles criaram a narrativa do Brasileirão 2016. Daqui a 20 anos, ao se pesquisar sobre o Campeonato Brasileiro de 2016, o “cheirinho de Hepta” vai dominar as buscas. Isso é dominar o discurso, construir uma História, ser grande. Em 2015, essa narrativa foi dominada pelo Corinthians de Tite, assim como o imbatível Cruzeiro do Luxemburgo dominou em 2003. Em 2016, é claro que vai se falar no Cuca, na fila que o Palmeiras saiu, mas até para valorizar esse feito, vai estar lá o “cheirinho de Hepta”. Mesmo não conquistando de fato o Hepta, a brincadeira rubro-negra foi o assunto dominante de toda a Série A neste ano. É como aquela música do Roberto Carlos: “se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi”.

Para terminar, a maior evidência de que hoje o Flamengo é muito maior do que o Flamengo de uma década atrás está no comportamento e na expectativa de sua própria torcida. Na metade final da década de 2000, a torcida rubro-negra comemorava vaga na Libertadores como “título”. Ficar no G-4 era um feito! “Ih, Libertadores qualquer dia tamo aí!”, lembram? Pois hoje, “só” conseguir a vaga na Libertadores virou “vergonha”, quase “crise”. Essa mudança de expectativa da torcida com o time mostra quão maior o Flamengo está. Então, apesar da frustração momentânea por sair da disputa do título, o torcedor rubro-negro perceberá que pode estar feliz. O “Mengão maior do mundo” está ainda maior. “E o cheirinho?”, terá que responder às provocações saudáveis dos rivais. “Fica na tua, mermão, que o Mundial vocês nunca vão ter!” rs.

Foto em Destaque: Vanderlei Almeida | AFP | Getty Images

Greg

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

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