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Mangueira campeã! O melhor título possível!

O campeonato do Carnaval 2016 da Estação Primeira de Mangueira é histórico! Simplesmente, o melhor título possível! Não, não vou analisar os quesitos e as notas, apenas constatar o porquê de a vitória do desfile com o enredo “Maria Bethânia, a menina dos olhos de Oyá” ser antológica!

A Mangueira, encerrando o maior jejum de sua história (14 anos sem título), venceu o Carnaval 2016 do Rio com um enredo sobre uma mulher. Em tempos de luta das mulheres, de empoderamento feminino, de batalha por quebra de uma cultura machista e opressora na sociedade, a Mangueira cantou e exaltou “uma mulher” que é um símbolo da cultura nacional, a “Abelha-rainha da MPB”, uma mulher que comemora 50 anos de carreira de sucessos, uma mulher pioneira (a primeira cantora brasileira a vender 1 milhão de discos, com “Álibi”, em 1979). Viva, Bethânia! Não mexe comigo que eu sou a menina de Oyá!

Quer mais? Em tempos de intolerância religiosa, de perseguições contra religiões de matriz africana no Brasil, a Mangueira foi campeã exaltando o sincretismo religioso de Bethânia – e, claro, do país! A verde e rosa mostrou que a convivência de Orixás e santidades católicas não só é possível, como campeã! A diversidade e o sincretismo religiosos marcam a história de Maria Bethânia como a de milhões de brasileiros. A luta contra a intolerância, seja ela religiosa, racial ou o que mais for, deve ser constante e a Mangueira campeã nos recordou de que é possível, sim, uma convivência harmoniosa entre os diversos atores sociais. Flávia Oliveira, jornalista do Globo, escreveu melhor, assim: “a Mangueira lembrou ao Brasil que no coração de quem tem fé cabem Iansã, Oxum, Oxalá — orixás das religiões de matriz africana — e Nossa Senhora, Menino Jesus de Praga, São João Menino — santidades do catolicismo”.

Sincretismo religioso no desfile da Mangueira. (Foto: Raphael David | Riotur )
Sincretismo religioso no desfile da Mangueira. (Foto: Raphael David | Riotur )

 É no dengo da baiana, meu sinhô, que a Mangueira vai passar!

(E a porta-bandeira Squel “careca”, representando uma iaô do candomblé? Foi “A” imagem do Carnaval! Ditadura da beleza, racismo, intolerância religiosa? Não passarão!)

Squel, porta-bandeira da Mangueira, careca no desfile de 2016
Squel, porta-bandeira da Mangueira (Foto: Guito Moreto | O Globo)

Tem mais! A cidade do Rio de Janeiro passa por mudanças profundas, em um processo em que a população pouco ou nada vem sendo ouvida. Estão sendo feitas, sob a desculpa e real necessidade olímpica, enormes transformações na cidade, nos transportes, com especulação imobiliária, ofertas novas de serviços, preços altos, etc. A Mangueira campeã é também a tradição do Rio campeã, afinal a escola é uma das “Quatro Grandes” ou “Quatro Matriarcas” do Carnaval do Rio (junto com Portela, Salgueiro e Império Serrano). Em tempos em que não se ouve a população, com a “modernização tardia” passando por cima do que for em nome do “legado olímpico” (tema para outro post – algumas obras necessárias, outras talvez não, qual o preço, enfim… muitos questionamentos não debatidos com a população!), a Mangueira campeã nos relembrou que uma outra cidade é possível. Que afinal, qual é a cidade que queremos? Uma que atropela tudo em nome de uma suposta modernização – para quem usufruir? feita por quem e a qual custo? – ou uma cidade em que sua história é respeitada, em que todo o seu povo é ouvido, representado e respeitado, seja ele de elite ou preto, pobre e favelado? Afinal, a Mangueira campeã, como a escola mais popular da cidade, representou e deixou felizes cariocas e brasileiros de todas as classes sociais, raças, orientações, credos. A Mangueira campeã é a vitória da emoção, do chão, do samba, do verdadeiro espetáculo do povo.

Bateria Surdo Um fantasiada de "Fera Ferida". [Foto: Raphael David | Riotur]
Bateria Surdo Um fantasiada de “Fera Ferida”. [Foto: Raphael David | Riotur]
Mas, como um toque final, a Mangueira campeã também mostrou que é preciso e possível a renovação. Em tempos de crise de representações (sejam políticas, ou de líderes institucionais), o campeonato da Mangueira vem mostrar que é possível sim trazer novos ares para melhorar sem perder suas características tradicionais. Falo, claro, do carnavalesco Leandro Vieira, de “apenas” 31 anos, estreante no Grupo Especial e em apenas seu segundo ano de carreira. Leandro deu toques novos às fantasias, alegorias e adereços da verde e rosa para conquistar o campeonato. Que a Mangueira campeã sirva também para mostrar para a população do Rio que construir a cidade que queremos passa também por escolher representantes modernos, que tragam novas ideias, que saibam olhar para as características tradicionais de seu povo e extrair o melhor, mas que também inovem e busquem atualizações necessárias exigidas pelo tempo!

Parabéns, Mangueira! Parabéns, campeã! Talvez você, seu povo e o povo de sua cidade ainda não tenham tomado conta da importância e do tamanho de seu 19º título! O melhor título possível!

Foto em Destaque: Gabriel Santos | Riotur

Greg

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

3 thoughts to “Mangueira campeã! O melhor título possível!”

  1. Parabéns Mangueira e Parabéns Greg. Você tem o dom da palavra ! Seu texto dá um novo ânimo a nós, cariocas e também a todos os brasileiros atualmente tão carentes daquela alegria que era a marca registrada dos cariocas .

  2. Filhinho
    Que texto lindo, que belo exercicio de compreensāo dessa vitória mágica. Foi o melhor que li.
    Parabéns e que felicidade de pelo menos no caso da Manga, a gente estar do mesmo lado.
    Bjs

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