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“Flamengo, sem medo de ser feliz”

A frase que dá título a esse post foi um mantra que eu repeti em todo esse 2019, mas especialmente a partir do jogo contra o Emelec, nas oitavas-de-final da Libertadores. Traumatizados após diversas derrotas continentais com requintes de crueldade nos últimos anos, muitos torcedores do Flamengo entraram em desespero quando, após devolver no Maracanã os 2 a 0 do jogo de ida, o confronto entre o rubro-negro e os equatorianos foi para os pênaltis. Não bastava ter superado o trauma de se classificar na fase de grupos, após um 0 a 0 sofrido contra o Peñarol no Uruguai; era preciso expurgar mais um drama. “Sem medo da gente ser feliz”. Essa foi a frase que eu repeti, aos gritos, para diversos outros torcedores durante os pênaltis contra o Emelec. Para que eles adquirissem coragem. Para que transpirassem e passassem essa coragem aos jogadores.

Deu certo naquela noite. A primeira de muitas outras históricas que estariam por vir. “Chegou a hora da gente ser feliz; sem medo!”, repeti por meses.

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Como viver, como agir, quando se sabe que está vivendo a História? Há momentos em que você vive a História sem querer – e só vai perceber tempos depois que aquela situação específica era histórica. Mas há outros momentos em que você sabe que aquele acontecimento é “A” História sendo escrita diante dos seus olhos, ao seu lado.

Desde que abriu uma vantagem absurda na liderança do Brasileirão e se classificou para a final da Libertadores, todo torcedor do Flamengo percebeu, após uma rápida olhada no calendário, que o quarto fim de semana de novembro poderia ser um desses momentos históricos. O rubro-negro, no melhor dos sonhos, poderia ser campeão da América no sábado, dia 23, e do Brasileiro logo depois, no domingo, dia 24. Em 2019, o Flamengo teria a chance de fazer algo parecido com a famosa “época mágica” de 81: em 35 dias, naquele ano, o rubro-negro conquistou o Carioca, a Libertadores e o Mundial.

Na semana das decisões, os dias, horas, minutos e segundos pareciam levar o dobro do tempo para passarem. Ansiedade, apreensão, confiança, fé… como o time tem treinado? Vai ter surpresa? E o adversário? Cada passo era milimetricamente acompanhado – e analisado. As emoções, a todo instante sendo testadas. Embarque do time em pleno feriado, festa linda pela cidade, avião decolando em rede nacional. Chegada em Lima, no Peru, palco da decisão da Libertadores, acompanhada em tempo real. Viagens loucas de flamenguistas do mundo todo (trocas de passagens em cima da hora ou idas de ônibus), organização de eventos e confraternizações pelo Rio, superstições, mandingas, rituais religiosos, velas pra São Judas Tadeu, teve de tudo… não foram poucos os momentos de lágrimas antes mesmo do Flamengo entrar em campo para decidir o seu futuro.

É que o futuro do Flamengo não é um futuro qualquer. É a gravação no tempo das mais importantes lembranças para umas 40 milhões de pessoas. E essas pessoas, esses torcedores, depois de um longo período de espera e vacas magras, merecem ser felizes. Depois de tanta dor, o povo rubro-negro merece que as recordações dessa época sejam alegres, felizes.

E serão. O Flamengo foi campeão da Libertadores no sábado, 23 de novembro, por volta das 19h de Brasília, e do Brasileirão 23 horas depois, no domingo, 24, às seis da tarde. Aconteceu o aguardado feito histórico! Todo o êxtase e a comemoração épica da nação rubro-negra pelo Rio, pelo Brasil e pelo mundo dão a dimensão do tamanho dessas vitórias.

Esse futuro, agora presente e desde já História, é gerações revivendo a lembrança da época do Zico, do imbatível time da década de 80. É o grito de Libertação de gerações com menos de 38 anos, pessoas que não eram nascidas quando o Flamengo venceu a primeira (e até então única) Libertadores e viram diversas e dolorosas derrotas continentais. É o resultado de um longo processo pioneiro no futebol brasileiro, em que o clube optou pelo correto projeto de pagar dívidas e montar times mais fracos para no futuro – o hoje – colher frutos e poder montar um novo esquadrão – não o de 81, mas o de 2019.

O Flamengo campeão de tudo em menos de um dia vai além das lembranças alegres para 1/4 do 5º país mais populoso do mundo. É a ousadia sendo premiada – ao não se contentar com o pouco, não se contentar de ter vitórias sem desempenho alto; é a ousadia sendo premiada ao ir buscar um técnico estrangeiro que não abre mão de atacar, e atacar, e atacar, e sempre fazer gols e mais gols. É o Flamengo do Mister Jorge Jesus!

Acredite, rubro-negro: o Flamengo é o campeão da Libertadores e do Brasileiro de 2019! O time da Nação de 40 milhões, aquela que tem favela e asfalto e cobertura como ninguém, a Nação de pretos, brancos, pobres, ricos, nordestinos, cariocas, esquerdistas, direitistas, mulambos e outros mais. A nação de “todos menos alguns”.

De Diego Alves, o paredão em momentos-chave como na estreia na altitude em Oruro, na Bolívia, no pênalti contra a LDU, nos pênaltis contra o Emelec, no chute de Everton, do Grêmio; de Rafinha, o representante mais fiel de um torcedor dentro de campo, líder sem braçadeira de capitão; de Rodrigo Caio e Pablo Marí, seguros na defesa, mas também artilheiros de cabeça; de Filipe Luís, o lateral habilidoso, o facilitador de jogadas; de Arão, aquele que soube se reinventar, que “tá mal”, mas que depois ficou bem e hoje rima com “Seleção” no canto dos torcedores; do Gérson do VAPO, do Coringa em campo, aquele que joga fácil em todas as posições; do Éverton Ribeiro, o “miteiro”, o mágico; de Arrascaeta, Arraaaxxca, o gênio; de Bruno Henrique, o mais rápido, habilidoso e possivelmente o melhor jogador do ano do futebol brasileiro; de Vitinho, sempre agudo, chutador; de Reinier, representando todo os garotos do Ninho, os #Nossos10, todas as gerações de craques que o Flamengo formou e formará (e nos lembrando que ainda há uma pendência a ser equacionada no caso do incêndio); do Diego, exemplo de perseverança, profissionalismo e dedicação, a personificação de que resultados também se constroem com muito suor e esforço… e de Gabigol. A lembrança dos rubro-negros, a História contada, poderá sempre ser resumida em uma certeza – certeza essa que começou como profecia e se concretizou até mesmo na final continental: HOJE TEM GOL DO GABIGOL. Todo dia teve. Sempre. Pra sempre terá. Quando olharem para 2019, seja em 2029, 2039, ou daqui a 38 anos, uma coisa é certa: “pode levantar a plaquinha” porque HOJE TEM GOL DO GABIGOL.

“Joguem sem medo. Chegou a hora da gente ser feliz” deu certo não só naquele jogo contra o Emelec, mas em diversos outros do ano, tanto nas rodadas do Brasileirão como na virada fantástica nos acréscimos da final da Libertadores contra o River Plate. Esse é o mantra desse time de 2019 e é o que fica de legado, claro, para o nosso futebol tão carente de identidade, mas também para a nossa vida cotidiana: viver sem medo de ser feliz. Sem medo de que possa dar errado. Muitas vezes, acredite, acaba dando certo.

Acredite, Nação! Nós conseguimos! Somos bicampeões da América! Somos heptacampeões do Brasil! #VencemosJuntos

E agora o seu povo… pede o mundo de novo!

Jogadores do Flamengo levantam o troféu de campeão da Copa Libertdores 2019.

Foto em destaque: goal.com

Greg

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

One thought to ““Flamengo, sem medo de ser feliz””

  1. Greg, parabéns pelas palavras, pelas colocações, mas principalmente, pela exposição dessa emoção que todos nós flamenguistas sentimos sábado. Incrível!

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