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Dica: Livros para entender o Rio de Janeiro

Há alguns anos, tenho tido muito interesse em livros que falem do cotidiano do Rio de Janeiro, cidade pela qual tenho uma relação estreita. Nesse post, vou falar sobre alguns livros que julgo essenciais para quem deseja entender uma parte da dinâmica da sociedade do Rio de Janeiro (e, por tabela, do Brasil). São livros com temas envolvendo polícia, bandidos, facções criminosas, disputas de territórios, políticos e, claro, violência, segurança pública e questões sociais profundas. Gosta de ler e está procurando umas dicas? Então, chega mais! Prometo que não há spoilers!

Primeiro, queria dizer que acho o Rio incrível. Você pode ler o meu texto em homenagem aos 450 anos da cidade aqui. No entanto, como bom carioca, é claro que sei que precisamos sair do “cartão postal” para a realidade diária. Essa é complexa, difícil de ser entendida. E é por isso que tenho lido muito sobre o assunto.

Minha mais recente leitura foi “Oeste – A Guerra do Jogo do Bicho”, de Alexandre Fraga. Descobri esse livro por acaso, em uma ida despretensiosa à Saraiva. Apesar de ser um romance, há um paralelo com a história real do jogo do bicho no Rio de Janeiro. O interessante na leitura é justamente observar o que foi “floreado” pelo autor com o que realmente aconteceu e perceber quem é cada personagem descrito. Alguns são mais óbvios, contraventores “famosos”; outros, eu confesso que joguei no Google. Porém, o principal é que independentemente dos nomes envolvidos (seja considerando os fictícios ou os reais) e das situações específicas mostradas (aumentadas, com o local modificado, ou não), fica explícita a configuração de parte da sociedade do Rio de Janeiro, a relação da(s) polícia(s), de políticos e, claro, escolas de samba também. (Aliás, depois vou fazer um outro post no estilo desse com dicas de livros sobre o Carnaval do Rio de Janeiro, outro viés importante para o entendimento do Rio de Janeiro e sua sociedade.)

“Oeste” me remeteu, obviamente, aos tradicionais “Elite da Tropa”. O “Elite da Tropa” foi o primeiro livro que li sobre o assunto. Sim, é o famoso livro que deu origem ao filme de nome quase igual – “Trope de Elite”  – e dispensa apresentações. Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel retratam como ninguém o dia a dia da polícia carioca e a sua relação com a sociedade. Mas fica a dica: é preciso ler o “Elite da Tropa 2” também, ok? O segundo volume (assinado também por Cláudio Ferraz) vem ampliar o debate do primeiro, quebrando com boa parte da visão mostrada inicialmente. No “Tropa 2”, mostra-se a questão das milícias e seus mais diversos tentáculos, inclusive na política. Ou seja, os dois volumes são como uma obra só, dando um panorama mais rico das relações de poder nas terras do Rio.

Complementando esse universo dos três livros citados, recomendo mais um, que comprei em uma Bienal do Livro. Chama-se “A Dona das Chaves”, escrito por Julita Lemgruber com Anabela Paiva. O livro se propõe a contar a história de “uma mulher no comando das prisões do Rio de Janeiro”, a própria Julita como diretora-geral do Desipe (Departamento do Sistema Penitenciário do Rio de Janeiro; desde 2003, há a SEAP – Secretaria de Estado de Administração Penitenciária) no governo Brizola. Esse é um livro para aprofundar o conhecimento sobre a rotina dos presídios do Rio de Janeiro. Quem já conhece a trajetória da Julita, sabe de suas ideias e o livro deixa isso claro logo na orelha: “encarou o desafio de humanizar o sistema carcerário”. Em tempos de discussões calorosas sobre a redução ou não da maioridade penal, essa torna-se uma leitura quase que obrigatória. OBS: não estou defendendo um ponto aqui, estou apenas mostrando que, concordando ou não com a redução da maioridade penal, a sua opinião terá mais embasamento e profundidade após ter lido esse livro. Maioridade penal será tema de um post futuro, prometo!

Por fim (Nossa, que post gigante! Alguém chegou até aqui?), um clássico e premiadíssimo livro sobre o tema: “Abusado”, do Caco Barcellos. O livro conta a história de um traficante famoso do Rio de Janeiro, mas, mais do que isso, choca por apresentar com riqueza de detalhes e de apuração as histórias e as relações dos personagens envolvidos. O destaque é a trajetória de “Juliano” VP e a favela Santa Marta, em Botafogo, mas o livro todo é um mergulho nas profundezas das operações das facções criminosas e seus modos de agir e o cotidiano de grande parcela da população carioca. O livro só podia ter sido escrito por um jornalista brilhante como o Caco Barcellos.

Bom, essas são as dicas sobre o tema, que é riquíssimo. Como prometido, farei outro post depois no mesmo estilo, mas com livros sobre o Carnaval do Rio. E aí, curtiu as dicas? Faltou algum livro? Já leu algum desses aqui? O que achou? Deixe seu comentário!

Foto em Destaque: do autor; tirada do alto do Mirante Dona Marta, no topo do morro de mesmo nome, em que fica a favela Santa Marta, em Botafogo.

Greg

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

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