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A vida é muito curta para falar mal de cidades

Há uns 15 dias, a jornalista paulista Mariliz Pereira Jorge escreveu que “a vida é muito curta para morar no Rio”. Como vocês sabem que eu adoro escrever sobre a cidade, não podem imaginar o quanto minhas mãos estavam coçando para falar desse texto. Aí, a escritora paulista Mônica Montone disse que “a vida é muito curta para falar mal do Rio” e pronto! Precisei me meter!

Esse texto é uma carta aberta aos 56% que dizem querer sair do Rio de Janeiro e, em especial, à Mariliz.

Cara Mariliz, como pode você passar o texto todo descendo o sarrafo no Rio e, no final, dizer que “obviamente, criminalidade, pobreza, corrupção e falta de toda a sorte de serviços básicos são problemas em maior ou menor grau em todas as capitais brasileiras, mas nenhuma se vende como Cidade Maravilhosa“? Ora, é você mesma quem diz ao longo do texto! Todas as cidades têm problemas. O Rio, apesar dos problemas, tem, como você mesmo salientou, uma “paisagem espetacular” e, como a Mônica enfatizou, “continua e sempre será lindo! Não apenas porque sua beleza natural é exuberante, mas porque, mesmo no caos, o carioca encontra motivos para sorrir e ser feliz — e quer beleza maior que essa?”

Cara Mariliz, você diz que o que mais quer é ir embora, que ninguém precisa te mandar embora. Mas também, para onde você iria?

Certamente, não de volta para São Paulo, né? Além de não ter a paisagem do Rio, a vida foi muito curta para um menino de 15 anos morto pela polícia. Para um outro de 11, também. A vida foi muito curta para cinco moradores de rua que morreram de frio. Só conhecemos o nome do João Carlos Rodrigues, de 55 anos, e do Adilson Roberto Justino. Os outros são Josés, Marias, Marilizes, vai saber. Ah, vale lembrar que a prefeitura recolheu cobertores de moradores de rua por lá, hein, para evitar “atrapalhar os pedestres”.

Que tal ir para os Estados Unidos? Fora do Brasil, melhor né? Se bem que não vá para Orlando. A vida foi muito curta para Lane Graves, 2 anos, morto por um jacaré. Se insistir em Orlando, nada de ser ou apoiar a causa LGBT+ por lá, hein. Ou você pode estar numa boate se divertindo com os amigos e ser vítima de um massacre. A vida foi muito curta com 49, esses aqui.

Em Maryland e no Nebraska, a vida foi curta demais para quem passeava no shopping. Colorado? Nem pensar! A vida foi muito curta para quem estudava em Columbine. E o jeito é torcer para não cometer o erro de ir assistir ao filme do Batman no cinema, na sessão errada, na hora errada. Em Virgínia, nada de ir para a Universidade em Blacksburg, porque lá a vida também foi muito curta para 32. Se você for negra, cuidado com os policiais de Nova York. A vida foi muito curta, por exemplo, para Akai Gurley, 28.

Que tal a Europa? Paris tem uma beleza comparável ao Rio de Janeiro. Se bem que por lá a vida foi muito curta para 137 que ousaram ir a uma casa de show, a restaurantes e bares na noite, assim como você, que disse que gosta de ir no Jobi. Você pode tentar morar em Madri, mas cuidado ao pegar os trens. A vida foi curta para 191 pessoas. Em Londres, cuidado para a vida não ser curta no metrô, como foi para 52 pessoas. Lá, a vida também foi curta para o Jean Charles, 27, brasileiro confundido com um terrorista pela polícia britânica. Em Bruxelas, a vida foi curta, curtíssima, logo no aeroporto. Na Turquia, é sair de casa e torcer para não ser vítima de um dos dez atentados em um ano.

Veja, o problema não está nas cidades. Está em nós. As cidades não são uma “coisa com vontade própria”, um “ser”. As cidades somos nós. O problema não está no Rio se chamar de maravilhoso e ser violento, o problema está em um modelo de concepção de sociedade e organização da vida que se mostra falho, falido, em crise. No Rio, em São Paulo, no Brasil, no mundo. Desculpa te desapontar, Mariliz, mas a vida não é tão melhor lá fora. Porque enquanto você quer ir embora criticando iniciativas como o “Rio, eu amo eu cuido”, existe muita gente “babaovista” tentando melhorar a sua rua, o seu bairro, a cidade. Já que você não curte o “eu amo, eu cuido”, posso te apresentar outros… você já ouviu falar, por exemplo, no “Meu Rio”?  E o movimento “Se a cidade fosse nossa”? A ONG Ação Social Pela Música? O AfroReggae? São projetos concretos, feitos por gente séria, não essa que você diz que “acha bonito subir o morro e postar foto da comunidade e fazer de conta que ela está integrada”. Você conhece o trabalho do biólogo Mario Moscatelli, que luta quase que sozinho contra isso que você chama de “mergulhar no cocô para se refrescar”? Todos esses fazem o Rio ser maravilhoso, sim. Junto com as belezas naturais, é claro!

Não Mariliz, a Cidade Maravilhosa não “é uma farsa, uma paisagem espetacular, recheada de problemas escandalosos”. Isso que você está descrevendo é o mundo, Mariliz. A Terra é maravilhosa, mas também cheia de problemas. E o Rio é um dos pedaços mais maravilhosos do planeta. Por sua gente, por sua beleza, por sua alegria. Pela vontade de melhorar, basta procurar as pessoas certas. Ninguém festeja como nós, e, ao mesmo tempo, ninguém quer tanto melhorar como nós. Por isso, o Rio é sim a Cidade Maravilhosa, apesar de tudo. Os outros cantos da Terra também têm problemas sérios. A vida é muito curta para ficar falando mal das cidades sem fazer nada para melhorá-las, como se fossem “serem distantes e imutáveis”.

Veja, Mariliz, talvez só te reste ir para Pasárgada. Será que lá os outros 56% também serão amigos do rei?

 

Foto em destaque: Sean Caffrey | Getty Images

Greg

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

8 thoughts to “A vida é muito curta para falar mal de cidades”

  1. Pessoas como Mariliz conseguem ser infelizes até em Pasárgada. Que desperdício de humanidade! Bom é fazer algo, embora difícil. Falar mal é muuuito fácil.

  2. Sobre o comentário anterior, gostaria de deixar claro que em nenhum momento quero desrespeitar a figura do blogueiro aqui, no caso Gregory Kaskus, por favor não leve para o lado pessoal, critico sim, o texto, as idéias e espero que você entenda que não é pessoal, já que nem te conheço. Mas comparar RJ com as cidades que você comparou me tirou do sério. Abs

  3. Olá Gregory, gostaria por favor de me desculpar pelo modo grosseiro do primeiro comentário, mas é que eu perco a linha e depois mais calmo, vejo que tenho que respeitar a opinião, embora não concorde. Por favor apague o comentário e volto a afirmar que não tive intenção de levar para o lado pessoal.

    1. Tudo bem, amigo! Comentário apagado! Legal você ter pedido desculpas por um momento de cabeça quente! E fique tranquilo que não levei para o lado pessoal, afinal a ideia do blog é justamente que tenhamos debates saudáveis – se todos nós concordarmos em tudo, não tem motivo pra ter debate! rs Abraço!!

  4. Meu Deus. Não é possível alguém comparar o que acontece no rio com as violências eventuais em outros países. Fui Carioca 95% dá minha vida. Sai dá cidade por saber que a minha morte lá por violência seria inevitável, só não sabia quando. Tenho mais de vinte amigos que sofreram violências bárbaras, sejam tomando tiro ou vítimas de sequestro. Não enumerei os de assaltos simples de mão armada. Rio de janeiro é uma cidade que já era. Visitar, é colocar a vida em risco. Eu graças a Deus me livrei dessa praga.

    1. Que bom que você está feliz onde está, Marcelo! Mas acho que a ideia do texto é justamente mostrar para quem continua morando aqui (ou porque quer, ou porque não tem condições de sair) que não adianta “só falar mal do Rio”, dá para fazer muitas coisas para ajudar a melhorar a cidade. É ser “agente” da cidade, e não só um usuário.
      Obrigado pela visita e comentário!

  5. Rio, nunca mais. Sai da cidade e hoje fico entre Curitiba e Vitória. Morava na Tijuca e era um caos. Pessoas mal educadas, muito lixo, trãnsito no qual um quase come o outro, lei do cão total, imóveis caros, enfim péssima qualidade de vida. Hoje eu ando na rua sem medo, no calçadão de noite, uso celular onde quero. Não precisei sair do país para isso. A paisagem não compensa nada do que passamos no Rio.

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