Skip to main content

A noite em que a sociedade perdeu

O Flamengo empatou com o Independiente-ARG por 1 a 1 e viu o clube argentino ser campeão da Sul-Americana. Mas, muito mais do que uma derrota do rubro-negro carioca, o que se viu no Maracanã e no entorno do estádio na noite de 13 de dezembro foi a derrota da nossa sociedade. Crianças, mulheres, idosos, cadeirantes, todos sofrendo com vândalos e o total despreparo da polícia militar.

Pessoas correndo para todos os lados. Encolhidas, escondidas atrás de pilastras. Algumas tossindo, outras cobrindo o rosto. Muitas passando mal, quase desmaiando, vomitando. Barulho de bombas e tiros a todo instante. Crianças chorando.

Essa poderia ser a descrição de uma praça de guerra declarada, mas era o entorno do Maracanã tanto antes da final da Sul-Americana como na saída do estádio após o jogo de futebol. Não lembrava em nada o que se esperava de um programa de lazer. Era, sim, uma praça de guerra. Eis o que eu vi e vivi:

 

20h20. Tudo “calmo” na saída do metrô e no entorno do estádio. Apenas torcedores bebendo, cantando, fazendo barulho. Muita gente (óbvio!), mas tudo na paz. Alguns barulhos de bombas, fogos e sinalizadores, mas nada atípico. A aparente tranquilidade começava a ir embora perto dos acessos E e F, que vão para o Setor Norte do Maracanã. Ali, por algum motivo não explicado, as pessoas estão tendo dificuldades em passar seus cartões-ingresso nas roletas e as filas são imensas. Tão grandes que saem da parte gradeada para organizá-las, o que começa a gerar confusão.

20h30. Com o tempo passando e as filas sem andar, os torcedores começam a ficar impacientes. Além disso, muitos que não possuem ingressos começam a tumultuar na expectativa de entrarem no estádio na confusão. Os portões de acesso são fechados e as grades que organizavam as filas começam a cair/serem empurradas para não machucar pessoas/serem derrubadas por alguns. A polícia e os seguranças particulares/orientadores de público do Maracanã observam e nada fazem.

20h35. Com a queda das grades que organizavam o “curral” das filas, as pessoas se aglomeram em volta dos portões dos acessos sem a menor organização – os portões permanecem fechados, ninguém passa pelas roletas. Não sei precisar porque começou uma confusão no acesso E, mas com o início de estouro de bombas de gás lacrimogêneo e spray de pimenta, mais gente corre em direção ao acesso F, que fica totalmente superpovoado.

 

20h40. Começam a forçar os portões do acesso F no braço para abri-los. A polícia, em total desespero, joga spray de pimenta a esmo. Correria total, com crianças, idosos, cadeirantes no meio da confusão. Os portões forçados finalmente se abrem e aí todos correm ao mesmo tempo para entrar no Maracanã. Sobram cotovelos, empurrões, chutes pra todo lado. Todo mundo que estava perto dos portões entra no estádio, sem a menor distinção de quem tinha ou não ingresso. Nenhum passa pelas catracas. Ninguém, repito, absolutamente ninguém é revistado. Qualquer um pode ter entrado portando qualquer objeto, bomba, arma, sem ser incomodado.

20h45. Após a “invasão” de diversos torcedores, a polícia começa a jogar spray de pimenta e bombas de gás lacrimogêneo de qualquer jeito. Atingindo a todos, sem distinção, sem direcionar o povo para algum lugar. Os próprios orientadores de público do Maracanã reclamam e pedem por água para respirar. PMs de dentro do estádio, perto da subida da rampa, também cobrem os narizes. O caos está instalado. Para completar, alguns policiais começam a atirar as bombas do local das roletas para DENTRO, isso mesmo, DENTRO do Maracanã, na direção da rampa de subida para o anel do estádio. Uma total falta de preparo, pois não impedia ninguém de ainda invadir o acesso F e deixava encurralados entre a entrada (completamente tomada por spray de pimenta, gás e empurra-empurra) e a rampa de subida ao estádio (que você não conseguia ver um palmo a sua frente tamanha era a fumaça de gás lacrimogêneo) diversas pessoas que estavam paradas esperando o tumulto passar. Nessa confusão, sem respirar por causa do gás e com os olhos ardendo muito, achei que fosse desmaiar, como vi duas mulheres caindo. Crianças chorando aos montes. Idosos com pavor. Um cadeirante perdido e quase passando mal, pois parou no meio da rampa tomada por gás… enfim, tudo, menos uma entrada civilizada de uma opção de lazer. E o pior, com a própria polícia literalmente colocando gás no fogo. Um cano quebrado que se transformou em um chafariz improvisado foi o que salvou os torcedores para molharem o rosto, respirarem, limparem minimamente os olhos e conseguirem subir a rampa do Maracanã para fugir dali o mais rápido possível.

00h00. Fim de jogo. Com o empate e a perda do título em casa pelo Flamengo, alguns torcedores vândalos mais exaltados derrubam grades, chutam caixas e gritam palavras de ordem. Algumas bombas ao longe, mas nada assustador. Até que mais uma vez entra em cena o total despreparo da nossa polícia. Não vi o motivo, mas acredito que tenham jogado garrafas de vidro na direção dos policiais, algo específico assim que fez com que eles revidassem. O problema é que em vez de procurar os responsáveis pela desordem, mais uma vez saíram jogando bombas de gás e spray ao Deus-dará. Inclusive na direção da saída dos torcedores do acesso E, que não tinham passado nem perto da confusão inicial que fez a PM revidar – e claro, muitos pais com filhos, e idosos e pessoas com muletas, e cadeirantes, e enfim. Qualquer polícia do mundo é treinada para deixar o bandido fugir desde que salve o refém; aqui, mata-se os dois, refém e bandido, pois atira-se para todo lado. Da saída do estádio até o metrô, os torcedores foram cercados de bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e spray de pimenta por todos os lados. Corre pra UERJ, pra estação Maracanã. Impossível, mais gás. Inclusive a polícia jogou bombas DENTRO da estação do metrô. Surreal, mas é com isso que lidamos. Corre pro Museu do Índio. Tome bombas. Fora as garrafas de vidro de parte das pessoas agora revoltadas com a atuação da polícia.

Enfim, são 4h30 da manhã e só agora a adrenalina começou a baixar. São mais de 10 anos de estádios. Já vi diversas vitórias épicas, títulos, e também derrotas muito dolorosas. Pela primeira vez na minha vida, o resultado de um jogo foi supérfluo. Cheguei em casa agradecendo a Deus por eu e meus parentes e amigos estarmos vivos – e bem, apesar de alguns arranhões, olhos inchados, tosse, e um primo que ainda escuta um zumbido em um ouvido por causa de uma bomba que estourou ao seu lado. Só quem está encostado em uma pilastra encolhido, olha pra cima e vê uma bomba caindo na sua direção, sem saber se fica parado, corre pra direita ou pra esquerda com pavor daquilo cair alguns metros pro lado e você tomar a decisão errada, sabe o tamanho da derrota que aconteceu hoje no Maracanã e seu entorno. Corri como nunca, uma hora inclusive dividindo a rua lado a lado com uma bomba quicando saindo fumaça. Pouco importa quem ganhou ou quem perdeu em campo. Perdemos todos fora dele.

Pontos aleatórios de questionamento:

1 – Não é possível que não seja possível fazer um isolamento do perímetro do estádio de forma decente, para que não haja esse tumulto todo na entrada. A revista e a conferência de quem tem ou não ingresso deveria ser feita muito mais longe dos acessos, evitando todo esse caos (não é a primeira vez). Polícia, guarda municipal, clube, consórcio do Maracanã, é urgente resolverem essa questão.

2 – O Flamengo quer tratar o seu torcedor como “cliente”, “consumidor”, então não pode “lavar as mãos” para esses problemas. Está a quilômetros de distância de conseguir isso. O torcedor/cliente/consumidor paga pelo sócio-torcedor e (caro) pelo ingresso e no mínimo precisa acessar o estádio e voltar para a casa de forma decente. Veja bem, não estou nem dizendo “com conforto”, porque já estou dando uma margem por se tratar de um “estádio de futebol e não de um cinema”, como gostam de dizer por aí. Mas você consumir um produto em que sofre risco de se machucar ou até mesmo de morte (vi idosos passando muito mal, alérgicos ao gás, pessoas desmaiando) é o quê?

3 – Dizem por aí que “não é só futebol” quando querem exaltar algum bom exemplo do esporte. Apesar disso, é um esporte, é lazer, é pra ser diversão. Ganhar ou perder é do jogo. Faz parte. Não dá para ficar “revoltado” com a derrota do seu time e sair por aí arrumando confusão, quebrando coisas do estádio, jogando bombas e garrafas nas pessoas e na polícia (ressalva: a maior parte das coisas arremessadas na direção da PM que eu vi foi como revide após as atrocidades de gás e spray, mas lembrando que isso foi o que eu vi, alguns com certeza devem ter se exaltado e procurado confusão).

4 – Nossa sociedade está doente e o esporte não é culpado disso, mas reflexo. O comportamento de parte da torcida e da PM não é novidade, pelo contrário. Vemos casos muito piores de despreparo policial todo dia nos jornais – crianças mortas baleadas por policiais dentro de escola, por exemplo. Precisamos olhar mais para nós mesmos e decidir para onde queremos ir como sociedade. Essa selvageria de todos os lados é boa para quem?

Greg

Greg

Carioca, mangueirense, jornalista formado pela ECO-UFRJ.

Comente